Prova Escarlate
Artefatos

Prova Escarlate

Raridade 5

Bônus de Conjunto

2

2 peças

ATQ +18%

4

4 peças

Ao desencadear uma Reação de Redemoinho Estelar, aumenta a Taxa CRIT do portador em 16% e o Dano da Reação de Redemoinho Estelar causada por ele em 40% por 10s.

Português

Domínios

Peças

Devoção Honrada

Devoção Honrada

Flor da Vida

Um adereço vermelho. Glorioso como o fogo.

História

A Srta. Guillotin está sentada na praça central de Snezhnograd, saboreando borscht ao ar livre e café quente com bebida alcoólica, como uma verdadeira moradora local. Mal o café é servido, o vento gélido já o deixa frio, mas cada gole ainda queima da garganta até o estômago. Perspicaz como sempre, a Srta. Guillotin entende imediatamente por que o garçom de orelhas pontudas recomendou uma dose dupla de Água de Fogo. Ir de Fontaine até Snezhnaya exige bastante esforço da Srta. Guillotin, e boa parte da viagem é passada atravessando campos nevados. O clima é mais frio do que ela esperava, embora as estradas sejam surpreendentemente transitáveis. Na verdade, é esse lugar estranho que vive atrasando sua viagem. Ela vê pessoas saltarem de peito nu de árvores com mais de dez metros de altura direto em montes de neve, enquanto crianças disputam corridas sobre lagos congelados para ver quem consegue quebrar o gelo e cair na água primeiro. Quem tiver mais azar vence e, portanto, é o mais feliz de todos. Para ela, isso é ainda mais difícil de entender do que as historinhas de Alain sobre heróis matando dragões. Nada parece ter qualquer propósito, mas tudo é maravilhosamente novo. Alguns meses antes, ela estava sentada em um banco na Corte de Fontaine, com uma xícara de chá nas mãos, observando através do ar úmido e enevoado a reforma do prédio do outro lado da rua. Para passar o tempo, apontava os erros no trabalho da equipe de construção. Em vez de se ofender, o homem responsável pela obra agradeceu, causando uma boa impressão nela. Por isso, ela permitiu que ele continuasse puxando assunto sem ser convidado. O homem, que se apresentou como presidente da filial de alguma associação, falava num tom tão calmo e ponderado que ouvi-lo lhe dava sono. Normalmente, teria sido uma ótima oportunidade para descansar. Infelizmente, desde a partida de Alain, ela sempre tinha tempo de sobra para ficar à toa e cochilar, e já havia se acostumado a cuidar, ainda meio adormecida, de assuntos triviais que nada tinham a ver com suas pesquisas. Por exemplo, após a morte do Duque Alain Guillotin, o Palácio Mermonia concedeu a ela uma enorme quantia de Mora como indenização. Ela não pretendia guardar toda aquela Mora como uma avarenta até morrer de velhice. Para começar, isso obviamente jamais aconteceria. Tampouco queria se tornar, séculos depois, a protagonista de alguma história de terror sobre uma boneca assombrada escondida num porão. Ela soube que o banco próximo oferecia alguns planos de investimento atraentes, mas um banco de uma nação estrangeira já parecia uma armadilha por si só. Por mais que o presidente da filial ao seu lado elogiasse o banco pelo apoio generoso que oferecia, isso não bastava para convencer a sempre perspicaz Srta. Guillotin. Além disso, havia a questão de como um pão podia ser tão amargo quanto café preto ou de como uma bebida podia ter gosto de pão. Alain a equipara cuidadosamente com sistemas de percepção térmica e gustativa indistinguíveis dos de um ser humano, então de que outra forma ela poderia testar se continuariam funcionando de maneira confiável após uma exposição prolongada a baixas temperaturas? O presidente da filial, simpático até demais, continua a entretê-la com histórias de aventuras em outras nações, lançando um ou outro elogio de vez em quando. Ele afirma que nem mesmo os aventureiros mais viajados têm muitas chances de encontrar uma dama com tamanha perspicácia, e que apenas ajudar a corrigir falhas no projeto de uma construção está longe de ser uma tarefa à altura de seus talentos. Assim, a Srta. Guillotin pousa a xícara vazia e decide experimentar a bebida com gosto de pão. Foi em uma mesa em meio ao gelo e à neve que ela conheceu o Diretor dos Fatui. Na ocasião, ela observava um Volkodlak, ainda mais desajeitado que Pulonia, tentando manter equilibrada uma bandeja inteira de copos transbordando, enquanto se perguntava quão antigo era de fato o Podvorye. Diante daquela cena de equilíbrio precário, o homem mascarado lhe falou de um ideal que buscava salvar o mundo. Ele disse que um destino desprovido de razão era uma corrente que precisava ser rompida, e que destruir o velho mundo era salvá-lo. Destino e salvação eram assuntos que lhe eram familiares, mas agora pareciam ter sido mencionados especialmente para ela. Ah, Alain... pensou. Você me deu uma alma livre e excepcional, mas alguma vez se perguntou o que eu escolheria fazer com ela? Pensando bem, refletiu logo em seguida, essa nunca foi uma pergunta que cabia a Alain responder. Cabia a ela, e era uma pergunta que teria de enfrentar em sua própria vida. O herói que empunhava a espada sagrada e o dragão que estava destinado a matar, merecendo ele ser morto ou não, eram parte de uma história do passado. Mesmo assim, o mundo ainda esperava para ser salvo. Não muito tempo depois, ela passou a ser conhecida como Marionette, ou Sandrone, e assumiu as responsabilidades que acompanhavam esse nome. Em seus momentos livres, voltava àquele assento familiar e contemplava o guichê da Guilda de Aventureiros. Atrás dele estava uma recepcionista chamada Katheryne, serena e graciosa, aparentemente intocada até mesmo pelos mais ferozes ventos e nevascas do inverno. Alguém afixou um programa de teatro no quadro de avisos próximo e, depois, um cartaz de recrutamento dos Fatui. Este último exibia uma flor escarlate, mais vívida que as saias das atrizes. Era uma condecoração prometida àqueles que se dedicassem à causa. Desde que Sandrone descobriu o verdadeiro propósito da Guilda de Aventureiros em Snezhnaya, nada disso lhe parece incomum. O grandioso ideal dos Fatui é uma fera voraz, e tanto o talento quanto a inteligência são essenciais para alimentá-la. Às vezes, ela sente que também faz parte dessa fera.

Glória ao Seu Legado

Glória ao Seu Legado

Pluma da Morte

Uma pena vermelha. Um presente para sangue jovem.

História

Em tese, além do Czar Belyi, que aceitou a autoridade divina concedida pelos céus, nenhum outro ser feérico tem qualquer responsabilidade de cuidar dos humanos. Evidentemente, porém, isso nunca impediu alguns deles de desejar a vida humana. Como se vagar livremente pela tundra não lhes trouxesse prazer algum, e só valesse a pena se agasalhar com casacos pesados e se esforçar para acender uma fogueira. Na verdade, Mirko era mesmo um daqueles que escolheram ingressar no mundo humano. Mas ele jamais diria que amava ou admirava a humanidade. Diria apenas que havia sido uma decisão de extraordinária visão. Ele gostava de observar o mundo e tirar conclusões a partir do que via. Por exemplo, analisar cada membro de um grupo poderia ser uma tarefa complicada, mas, em termos gerais, eles podiam ser divididos em três categorias: os mais jovens, os mais velhos e o bando de casos perdidos no meio. Seres feéricos jovens, ou criaturas jovens de qualquer outra espécie, tendem a ser muito adaptáveis. Muitas vezes, são moldados pelo ambiente ao redor e depois chamam isso de descobrir quem são e encontrar um propósito. Cheios do fervor da juventude, eles se alistam no exército ou se dedicam à pesquisa, fazendo sua parte para engrandecer a glória de Sua Majestade, a Tsaritsa. No entanto, depois que ultrapassam um patamar de idade absurdamente elevado, tendem a adotar uma postura diferente, mais despreocupada e indiferente, deixando-se levar pelas circunstâncias. Quando a Tsaritsa ascendeu ao trono, por exemplo, uma das primeiras cartas de congratulação que recebeu veio dos confins desabitados do extremo norte. Se ela não trouxesse o nome de um dos príncipes, seria perfeitamente razoável se perguntar se o remetente ainda estava entre os vivos. Quanto aos que ficavam no meio, talvez se recusassem a acreditar que Sua Majestade realmente havia perecido na calamidade, ou talvez não aceitassem que a coroa tivesse saído das mãos de sua própria espécie. Seja como for, sua fúria obstinada até conseguiu arder com bastante intensidade, ainda que por pouco tempo. Zombar dos próprios semelhantes geralmente seria considerado desprezível, mas Mirko simplesmente não conseguia se conter. Não adiantava negar. Afinal, entre as qualidades pelas quais se julga um político, ser desprezível é um defeito surpreendentemente brando. Quando combinado à visão de futuro, passa a ser a virtude conhecida como saber para que lado o vento sopra. Depois de refletir um pouco, Mirko decidiu solicitar seu ingresso nos Fatui. Na verdade, ficaria decepcionado se a Tsaritsa não enxergasse suas verdadeiras intenções. Supondo, por ora, que aquela bruxa ainda pudesse ser considerada humana, essa organização de autoproclamados tolos ainda não havia aberto espaço para um ser feérico. Mirko não tinha a menor intenção de disfarçar seus motivos como uma luta pelos direitos de todos os seres feéricos. Apenas concluiu que, se um novo mundo estava prestes a nascer, não queria descobrir que não havia lugar para ele nesse mundo. A resposta dos Fatui à sua solicitação foi bastante sucinta. "Sr. Mirko Radovidovich Veleshek", leu ele, "apresente-se à Prefeita." A Prefeita Ioanna Ivanovna também exercia o cargo de Presidente do Conselho Avaliativo de Snezhnograd, e cada observador naturalmente tirava suas próprias conclusões desse arranjo. Aos olhos de quem via de fora, obrigar um ser feérico a baixar a cabeça e se tornar discípulo de uma humana era um aviso de Sua Majestade à velha ordem. Quanto ao "Galo", sua disposição de suportar tamanha humilhação em troca de um lugar entre os Fatui podia ser interpretada tanto como pura ambição quanto como uma admirável capacidade de engolir o próprio orgulho. Um político de visão não se apressaria em negar essas interpretações. Ambição ele certamente tinha, como demonstrava a alta estima que a Presidente Ivanovna nutria por ele, tornando-o um provável sucessor ao cargo dela. Quanto a humilhações, também não foram poucas as que sofreu. Ioanna Ivanovna era excepcionalmente hábil em tecer conspirações elaboradas enquanto apagava qualquer vestígio do próprio envolvimento, e Pulcinella, talvez por causa das pernas curtas, teve certa dificuldade para acompanhá-la no início. Considerando tudo isso, Pulcinella aprendera todo tipo de coisa com os humanos, fossem elas úteis ou não: a lealdade e a arte de semear a discórdia, o domínio da estratégia e como fingir tê-lo, um temperamento terrível e a melhor forma de escondê-lo. Foi assim que conseguiu presidir o Conselho Avaliativo serenamente enquanto desejava cravar uma lança na panturrilha de Pantalone. É verdade que levara a pior na disputa pela influência sobre a Guilda de Aventureiros. Isso era de se esperar, já que a maior parte de seu próprio trabalho se limitava a Snezhnaya. "Espere só", pensou. Aquele lunático sorridente podia até ser o presidente nominal da Guilda, mas Pulcinella não permitiria que toda a riqueza e influência dela caíssem em suas mãos. Os humanos também haviam deixado sua marca em alguns dos hábitos daquele cavalheiro Domovoy. Após a morte de Ioanna Ivanovna, Pulcinella se viu pensando em quem poderia sucedê-lo um dia. Era um pensamento um tanto absurdo, pois, com cautela suficiente, provavelmente poderia viver até o fim dos tempos. Talvez um dia se cansasse de tudo aquilo, de inventar novas maneiras de lidar com seus colegas tão peculiares. No entanto, o ideal que a Tsaritsa um dia lhes apresentara estava em sintonia com a visão maior que ele guardava no coração. Teria de perseverar ao menos até o dia em que esse ideal se concretizasse, não é mesmo? Claro que deixar de lado a questão de um sucessor não impediu Pulcinella de reparar em certo jovem muitos anos depois. Ajax claramente não possuía nenhuma das qualidades exigidas de um político. Para começar, ele já escolhera seu mestre e não tinha desejo algum de se tornar discípulo de outra pessoa. E, se alguém tivesse de orientá-lo, o Capitano sem dúvida era muito mais adequado para esse papel. Assim, da mesma forma que Ioanna Ivanovna um dia o observara, Pulcinella acompanhou o crescimento de "Childe". Após uma reunião matinal, abordou discretamente o assunto com Capitano, que se preparava para partir rumo a Natlan. Logo no dia seguinte, Pulcinella avistou de longe o sorriso radiante de Tartaglia. "Olhe! Acabei de me despedir do Capitão, e ele me deu isto..." Pulcinella reconheceu de imediato o objeto dentro da caixa. Era uma das canetas de pena entregues aos soldados durante os primeiros recrutamentos dos Fatui. Mesmo após vários séculos, sua cor não havia desbotado, prova de que fora cuidadosamente preservada durante todo esse tempo. Pulcinella assentiu com um sorriso afável. Assim como o futuro, transmitido de uma mão a outra, aquilo também fazia parte de sua visão de longo prazo.

Presente do Tempo

Presente do Tempo

Areia do tempo

Um relógio de bolso vermelho. Registra o tempo de uma conversa.

História

Quase assim que os cartazes de recrutamento começaram a aparecer nos quadros de avisos de toda Snezhnaya, Pulcinella mandou preparar várias salas tranquilas e confortáveis para servirem como salas de aconselhamento. "Salas de aconselhamento" era como as chamavam internamente. Para todos os outros, elas costumavam ser conhecidas como "salas de reunião" ou simplesmente "salinhas", como se precisar de aconselhamento fosse alguma enfermidade vergonhosa que devesse ser mantida em segredo. Havia ainda a "sala escura", um apelido de origem incerta que Capitano rejeitava categoricamente. No início, os Fatui capacitaram conselheiros devidamente qualificados para lidar com todo tipo de problema. Na prática, porém, muitos soldados relutavam em se abrir com estranhos. Preferiam procurar alguém em quem confiassem e, em algum lugar onde não fossem incomodados, falar sobre coisas que não queriam trazer à tona. Ou simplesmente desabar em lágrimas. Assim, o atencioso Pulcinella flexibilizou um pouco as regras. Depois que a reserva fosse aprovada, qualquer um poderia passar algumas horas lá dentro conversando com um acompanhante de sua escolha. Naturalmente, os Mensageiros não eram exceção. Certa vez, Capitano viu Lohefalter saindo de uma das salas, retocando o rosto com uma esponja de pó, enquanto Pulcinella vinha logo atrás, carregando a bolsa dela. Ele não tinha intenção alguma de se intrometer nos assuntos particulares de uma dama, e o Prefeito era um homem que sabia guardar segredos. Nenhum dos dois jamais voltou a tocar no assunto. Em outra ocasião, Capitano viu Dottore e Pantalone saindo juntos daquele andar tarde da noite, ambos com um sorriso de orelha a orelha. Como era de se esperar, Pulcinella logo lhes deu uma bronca furiosa ("Aqueles dois podiam conversar onde bem entendessem! Precisavam mesmo ocupar um espaço de uso comum?!"). Em seguida, anunciou que tomaria providências para acabar com aquele tipo de comportamento ("Digam a quem estiver encarregado para rejeitar de imediato as reservas daqueles desgraçados da próxima vez!"). Infelizmente, nenhum dos dois voltou a reservar uma sala de aconselhamento. Sem ter a oportunidade de aplicar a punição que havia preparado, Pulcinella acabou remoendo sua frustração mais uma vez. Capitano também não sabia o que dizer. Mais tarde, comprou uma garrafa de um bom vinho para Pulcinella, embora nunca tenha perguntado se ele chegou a abri-la. Quando se tratava de assuntos pessoais, Capitano era praticamente invisível. Estar presente ou não fazia pouca diferença nas conversas casuais dos outros, a menos que o assunto passasse dos limites. Todos concordavam que Capitano jamais deduraria ninguém. Às vezes, ele se sentia como uma sala de aconselhamento ambulante, acolhendo em silêncio cada segredo sussurrado. A conversa não o incomodava. Depois de tantos anos de treinamento, às vezes seu próprio coração fazia mais barulho do que qualquer um de seus colegas. Sentado na sala de aconselhamento, ele se sentia como um pequeno cômodo dentro de outro, que por sua vez ficava dentro de mais outro... até sua alma ser espremida bem no centro, cercada por cima e por baixo, pela frente e por trás, pela esquerda e pela direita. A sala de reuniões era pequena, com cortinas pesadas cobrindo as janelas. Não porque Pulcinella tivesse economizado, mas por causa de uma teoria segundo a qual as pessoas tinham mais facilidade para confiar umas nas outras em ambientes pequenos e acolhedores. Capitano não fazia ideia de onde aquela teoria tinha surgido. Depois de pensar por um instante, tirou o elmo e o colocou delicadamente ao lado. Naquela época, seu rosto ainda não era tão horrendo. Apenas tinha mais cicatrizes do que o normal, feridas que se recusavam obstinadamente a cicatrizar e que, sob a luz fraca, não causavam tanto horror. O homem que o convidara para conversar era um antigo aluno seu que, após concluir o treinamento, ingressara em uma unidade de operações especiais. Capitano sabia o que havia acontecido com o esquadrão daquele homem e, por isso, tinha alguma ideia do que ele queria falar. Eles haviam sido enviados a uma região remota para conter um distúrbio. Deveria ter sido uma missão relativamente simples, mas todos os sobreviventes que retornaram ficaram profundamente abalados. No fim, sem nenhuma outra opção, foram obrigados a chamar Dottore. Só então a situação finalmente foi controlada. Capitano estava presente na ocasião e, sentindo-se responsável pelos soldados, perguntou: "O que você deu a eles?" "Isto?" Dottore tirou outro frasco de vidro ainda lacrado e o entregou generosamente a ele. "Um sedativo potente." O frasco ainda estava em seu bolso. Esperava não precisar dele naquele dia. O soldado à sua frente parecia completamente exausto. Com a única mão que lhe restava, abriu o relógio de bolso, fechou-o e tornou a abri-lo, como se quisesse confirmar que o tempo ainda estava passando. "Sei que muitos ainda não acreditam, mas juro que tudo o que está no relatório é verdade", disse o soldado com um sorriso amargo. "Aquelas pessoas nunca sequer tinham ouvido falar de Sua Majestade, a Tsaritsa. Achavam que ainda viviam na era do Czar Branco. No começo, nos chamaram de capachos dos feéricos e monstros de quatro olhos. Jogaram água em nós, dizendo que purificariam nossos pecados de apostasia e nossa falsa fé..." "É, no começo tudo parecia absurdo daquele jeito! Eles nem sequer tinham armas de verdade. Alguém ao meu lado chegou a rir. O Líder do Esquadrão se aproximou devagar e tentou fazê-los entender. Disse que esta era pertencia à humanidade, que não precisávamos mais..." "E então... então..." Capitano leu o relatório. Ele continha relatos registrados após os sobreviventes recobrarem a consciência, seguidos por várias observações acrescentadas por Dottore depois de examiná-los. Os habitantes locais sofriam havia muito tempo de uma forma de histeria coletiva induzida por um vírus transmitido pelo canibalismo. Pelo menos, era assim que Dottore havia resumido a situação. Os soldados enviados para conter os distúrbios desenvolveram os mesmos sintomas após entrarem em contato com a água contaminada. No entanto, suas infecções eram menos graves, e ainda era possível salvá-los. Mais tarde, Dottore desenvolveu um novo tratamento. Enquanto observava os efeitos com as mãos cruzadas atrás das costas, ele quase parecia um médico de verdade. Perfeitamente razoável. O médico ajeitou os óculos. O jeito como estreitou os olhos fazia com que se parecesse estranhamente com outra pessoa. Eles viviam em um lugar tão isolado e inóspito que dificilmente se poderia esperar que tivessem outra coisa para comer. Capitano suspirou. Não queria perder tempo discutindo com um raciocínio tão frio, mas tão correto. Porém, quem tivera a garganta dilacerada? O braço de quem fora parar no estômago de quem? Será que a palavra "razoável" realmente poderia explicar aquilo? "Esqueça." O soldado interrompeu o relato de repente, arrancando Capitano de suas lembranças. "O conselheiro me disse que, se um dia eu conseguisse contar tudo o que aconteceu sem me abalar, significaria que estava me recuperando. Que grande besteira... Perdoe-me." Ele imediatamente abaixou a cabeça para se desculpar e tornou a olhar para o relógio de bolso. "Só reservei uma hora. Não quero tomar muito do seu tempo. A verdade é que... vim me despedir." Depois que o soldado foi embora, Capitano observou os objetos que ele deixara para trás: uma medalha em forma de flor vermelha, uma pena e uma garrafa de bebida que carregava consigo, um capacete remendado que parecia quase novo e um relógio de bolso que talvez tivesse sido deixado de propósito ou simplesmente esquecido. Capitano suspeitava que nem todos aqueles objetos haviam pertencido à mesma pessoa. Apenas acabaram reunidos ali. "Gostaria que ficasse com tudo isso, meu senhor", disse o soldado, que já havia decidido deixar o serviço. "Ou poderia entregar aos que vierem depois de mim. Espero que tenham mais sorte do que nós. Ou talvez... sejam um pouco mais fortes." Você não deveria pensar assim, pensou Capitano, embora nunca tivesse dito isso em voz alta. Na verdade, aqueles que conseguem sobreviver já são fortes o bastante.

Cálice do Sangue e Sofrimento

Cálice do Sangue e Sofrimento

Cálice de Eonothem

Uma garrafa de vinho vermelha. Espero que você não saiba o que está dentro.

História

Na primeira noite, ele permaneceu de mãos cruzadas atrás das costas em uma floresta de bétulas varrida por ventos cortantes. Os flocos de neve que grudavam em seus óculos eram um pouco mais incômodos do que os que caíam em seu rosto, então ele os tirou e guardou no bolso do casaco. Ao contrário do que os outros talvez pensassem, Zandik entendia muito bem os seres humanos. Primeiro, um ser humano completo possui duzentos e seis ossos. A maioria das pessoas usa o cérebro para pensar e geralmente sente medo ao ser surpreendida ou ameaçada. Segundo, para ser preciso, ele tivera o cuidado de incluir termos como "completo", "a maioria" e "geralmente" em sua descrição, evitando, assim, quaisquer possíveis objeções com base em casos isolados. Em última análise, sua compreensão mais profunda da humanidade consistia em saber que suas possibilidades eram ilimitadas. Na segunda noite, ele se sentou ao lado de uma fogueira fraca e compartilhou com alguns aldeões uma refeição de vegetais misturados a restos de carne animal. Uma mulher de cabelos negros e rosto marcado por rugas profundas cutucava a lenha, tentando avivar as chamas. Zandik tinha certeza de que ela não fazia ideia de por que aquilo levava as chamas a subitamente se erguerem. Ela só agia assim porque seus antepassados haviam feito o mesmo e obtido o resultado desejado, de modo que esse método não registrado fora transmitido de geração em geração. Zandik concluiu ainda que ela devia ser mais jovem do que aparentava e que o mesmo valia para os demais. Condições de vida severas invariavelmente causavam envelhecimento precoce e alimentavam o ressentimento. Desta vez, o ressentimento deles se voltava contra o frio, a fome, os seres feéricos, os seres feéricos de posição superior e os humanos degenerados que se submetiam a eles. Zandik já havia sido avisado de que aquele lugar tinha uma visão de mundo extremamente antiquada, o que o poupou até mesmo de se surpreender. Curiosamente, nem doenças nem mortes constavam entre as queixas dos aldeões. Talvez as pessoas lutassem instintivamente enquanto estivessem vivas, mas, ao morrer, poupavam todos do incômodo. Nessas circunstâncias, um estranho surgindo do nada seria naturalmente visto como uma ameaça e assustaria os moradores. Felizmente, por conhecer bem a natureza humana, Zandik veio preparado: os restos de animais eram sua contribuição. Que lugar perfeito. O gelo e a neve isolavam toda interferência externa, formando um mundo dentro de outro mundo, cada qual encerrado em sua própria casca. O comportamento humano permanecia primitivo, enquanto a própria história havia parado no tempo. Este lugar deveria ter dado origem a possibilidades ainda maiores. E quando Zandik falava das possibilidades da humanidade, estava longe de usar essa palavra como um elogio. Desconsiderando suas conexões com o mundo exterior, um cérebro humano colocado em um tanque de água não difere em nada de um alojado dentro de um crânio. Desde que os sinais adequados sejam simulados, ele produzirá a resposta predeterminada. Enquanto Dottore despejava os materiais experimentais no tanque, a voz de uma criança soou ali perto. Ela perguntou: "Isso na sua garrafa é uma borboleta?" Essa criança devia ser muito curiosa para se aventurar em uma noite tão fria que uma pessoa poderia morrer congelada, só para vê-lo realizar seu experimento. Se fosse um pouco mais curiosa e tivesse se aventurado um pouco mais longe, para além da floresta de bétulas, talvez pudesse ter seguido em frente e vivido uma vida muito melhor. Para recompensar a curiosidade da criança, Dottore jogou a garrafa vazia para ela e disse: "Isso não é uma borboleta. É um monstro de quatro olhos!" A criança recuou assustada, e a garrafa de um vermelho vivo caiu na neve. O medo do menino era exatamente o esperado, então Dottore logo perdeu o interesse e voltou ao que estava fazendo. Na décima noite, a comida e a água em sua mochila haviam diminuído consideravelmente, dando lugar a registros detalhados de seus testes com drogas psicotrópicas. Os resultados foram exatamente como ele previra: o controle mental induzido por drogas podia funcionar em ambas as direções. Tanto a estimulação quanto a sedação tinham sua utilidade e, se fossem aplicadas em interrogatórios ou tratamentos, ambas pareciam oferecer um potencial de lucro considerável. Os experimentos produziram resultados fantásticos, mas isso também significava que o tempo de Zandik como ele mesmo estava chegando ao fim. Em breve, ele retornaria ao castelo dos Fatui, voltaria a ser Dottore e cuidaria de assuntos de natureza um pouco mais humana. "Tão longe", pensou ele com pesar, enquanto contemplava a direção de Snezhnograd. Se ao menos pudesse operar o próprio cérebro, poderia relaxar e viajar confortavelmente como todo mundo.

Prova de Fé

Prova de Fé

Tiara de Logos

Um capacete vermelho. Mas quem deve proteger?

História

Pantalone permanece sentado no teatro como uma estátua, e seu indicador é a única parte do corpo que dá algum sinal de vida ao acompanhar ocasionalmente o ritmo da música. A apresentação de hoje não conta com nenhum artista célebre, tampouco encena uma peça renomada, e muitos dos assentos abaixo continuam vazios. Mesmo assim, ele vem e se senta sozinho. Seu médico prefere que ele passe seu tempo livre em público, onde não terá oportunidade de fazer nada que prejudique sua saúde. Além disso, no camarote particular reservado aos Fatui, é pouco provável que seja atacado por alguém além dos próprios colegas. Considerando tudo isso, dificilmente haveria lugar melhor para ele estar. Os artistas no palco cantam sobre amor e aceitação, mas histórias comoventes raramente agradam ao público daqui. Não que o povo de Snezhnaya não goste de finais felizes. O que acontece é que, antes de merecer tal desfecho, os personagens precisam enfrentar provação após provação, dando voz a tudo o que permanece reprimido no coração daqueles que habitam estas terras congeladas. É preciso romper os grilhões de um mundo decadente e seguir lutando em meio às florestas e aos ventos gélidos para, enfim, ter a esperança de vislumbrar ao longe os telhados de um mundo mais cálido. Mas esse não é o fim. Esse mundo aparentemente acolhedor também não é o seu lar. Se você não tiver valor e não puder fazer nada além de implorar por uma compaixão que jamais lhe seria concedida, nada mudará. Mesmo assim, não há como voltar atrás. Esta foi a lição que ele aprendeu: quando os grilhões voltam a prendê-lo, as correntes só ficam mais apertadas. Para se libertar uma segunda vez, tudo o que resta é esperar por uma brecha, mesmo que ela possa levá-lo a um lugar ainda pior. Certa vez, ele tocou no assunto durante uma conversa casual. Sua terra natal buscava subjugar aqueles que se recusavam a obedecer por meio da violência e do confinamento, enquanto a terra natal de seu amigo optava pelo exílio. Até uma mesma mentalidade estreita podia assumir formas diferentes e dar origem a possibilidades distintas. Diante disso, os dois riram, como se cada um encontrasse prazer no sofrimento do outro. Durante os primeiros vinte anos de sua vida, a felicidade só veio em momentos fugazes, como no dia em que sua mãe o vendeu a cobradores de dívidas ou nas ocasiões em que ganhou uma fortuna às custas de autoridades influentes e nobres e, por engano, acreditou que talvez tivesse a chance de se tornar um deles. Não se engane: ele não ficou satisfeito com o preço que pagaram por ele, tampouco com a fortuna que acumulou mais tarde. A verdade é que, em algum lugar de seu subconsciente, ele percebeu que tinha potencial para se valorizar (Afinal, quantas pessoas são vendidas duas vezes na mesma vida? Ha). Aquela mulher finalmente encontrou uma oportunidade de se livrar da aberração desobediente, mas, ao fazer isso, também lhe deu a chance de escapar daquele ermo congelado, um lugar do qual até as feras selvagens queriam distância. Com a vida improvisada de seu "pai adotivo", ele aprendeu que o dinheiro podia gerar ainda mais dinheiro. Os nobres aliados ao submundo do crime o atraíram para uma armadilha com a ilusão do lucro, mas, no fundo dela, havia um caminho que levava a poderes maiores que os da própria nobreza. E, como todas essas reviravoltas bizarras do destino só aconteceram depois que ele parou de rezar aos céus, passou a questionar ainda mais as regras estabelecidas deste mundo. Somente após abandonar sua reverência pelos deuses e se aliar aos párias do mundo é que ele se tornou apto a ser recrutado por esses mesmos deuses. É impossível saber se o público condenaria uma história de terror dessas. Felizmente, ele não tem intenção alguma de contá-la. Quando a última canção do espetáculo ecoa pelo ambiente, alguém abre a porta de repente. Só uma pessoa seria inconveniente a ponto de interromper alguém que está apreciando o final. Se a Mensageira mais recente estivesse ali, a enxurrada de insultos que se seguiria tornaria a perturbação duas vezes pior. Falando em sua nova colega, Pantalone a considera muito interessante. Assim que chega, ela começa a expressar sua insatisfação com todo tipo de procedimento, personificando perfeitamente o espírito rebelde que se espera de uma Mensageira. A tentativa de Pulcinella de usá-la para garantir uma parte dos lucros da Guilda de Aventureiros claramente fracassou. A garota jamais daria ouvidos às palavras melosas daquele político hipócrita. Além disso, as criações dela assumiram todo aquele tedioso trabalho de recepção. Embora não possa demonstrar tanta disposição, Pantalone ainda assim cedeu a Sandrone a parte que lhe cabia por direito, e fez isso com toda a sinceridade. Não passa de uma troca justa, um princípio que ele aprova plenamente. Pantalone passou boa parte do espetáculo perdido em seus pensamentos, portanto, naturalmente, o final pouco lhe interessa. Ele se levanta e se vira para Dottore, que evidentemente acaba de retornar a Snezhnograd, e percebe por sua expressão que tudo correu bem. Algum tempo atrás, Dottore propôs uma nova ideia para um experimento, e Pantalone por acaso conhecia o lugar perfeito para realizá-lo. Isso também faz parte de uma troca justa, e ele aprova plenamente.

Contribuições
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